DNA  DO CHORO

Felipe Lucena, jorn.

felipeflucena@widebrasil.com

 

O choro é um gênero musical que tem como principal característica a confraternização. Todos juntos, dentro ou ao redor de uma roda. O violonista Maurício Carrilho, ao longo de seus quase 40 anos de carreira, conhece bem esse caráter do choro e o pratica.

Um dos fundadores da gravadora de choro Acari Records, da Escola Portátil de Música e da Casa do Choro, Carrilho é hoje uma das maiores referências musicais no Brasil e no mundo. Maurício, que recentemente completou 60 anos de idade, integrou grupos como “Os Carioquinhas”, “Camerata Carioca”, “O Trio” e “Arranca Toco”. No entanto, sua carreira musical começou quando ainda menino tocou ao lado do tio, Altamiro Carrilho. Não dá para negar que a música está no gene do violonista.

 

A música está em sua vida desde sempre. Você chegou a pensar em seguir outra profissão?

Maurício Carrilho - Apesar dessa tradição da minha família (são cinco gerações de músicos, até onde eu consegui chegar pesquisando [risos]), apesar de eu ter estudado música desde sempre, eu fiz vestibular para medicina e passei. Estudei três anos na UEG, antiga UERJ. No terceiro ano do curso, conheci o Raphael e a Luciana (Rabello) e eles me convidaram para entrar no conjunto “Os Carioquinhas” e eu comecei a trabalhar com música. Eu tinha feito alguns poucos trabalhos com o Altamiro [Carrilho], mas foi com “Os Carioquinhas” que eu virei profissional de música. Isso começou a empatar os horários de aula e eu tive que escolher entre medicina e música. Escolhi a música.

 

Fez bem em ter feito essa escolha?

Maurício Carrilho - É engraçado que no “Os Carioquinhas”, o Paulinho do Bandolim (Paulo Magalhães Alves) também estudava medicina e optou por ficar na faculdade. Hoje, ele é um médico renomado, autoridade em medicina de aviação, mora nos Estados Unidos e nós sempre brincamos com essa coisa de quem se deu melhor na vida. Acho que minha vida ficou mais divertida. Mas têm os sacrifícios também, porque viver de música em um país que maltrata tanto a cultura não é fácil.

 

Você já virou referência artística para muita gente. Qual a sua maior influência na música?

Maurício Carrilho - O Regional do Canhoto: Dino, Meira e Canhoto foram as influências mais fortes que tive como organização de acompanhamento de choro. Eu sou mais ligado ao acompanhamento que ao solo. Por isso, eles são uma referência para mim. Tive aula com o Meira e com o Dino. Além deles, outra influência que tive foi o Baden Powell, que também foi aluno do Meira. Tem o Altamiro [Carrilho], também. Os primeiros discos do Altamiro que ouvi, ele tocava acompanhado pelo Regional do Canhoto. Juntava todo o talento, virtuosismo do Altamiro com a swingueira do Dino e do Meira no acompanhamento. Tem um disco especial deles que se chama “Choros Imortais”, esse disco saiu em dois volumes. O primeiro volume, eu ouvi todos os dias por um ano.  Eu tinha uns sete, oito anos de idade. Isso foi antes de eu começar a estudar violão. Comecei com nove anos. Quando fui estudar violão, eu já havia decorado tudo o que os violões faziam no choro por conta dessa audição. Até hoje, se eu pegar um papel de música, sou capaz de escrever tudo o que está naquele disco. A partir disso, vi que uma das coisas que queria fazer na música era aquilo.

 

Você é um cara de muitos trabalhos. Está focado em que atividade atualmente?

Maurício Carrilho - Eu tenho trabalhado muito compondo. À medida que fui fazendo trabalhos com choros de várias épocas, eu fui vendo as infinitas possibilidades dessa música e resolvi fazer uma experiência. Em 2005, passei a compor um choro por dia. De um de janeiro a 31 de dezembro. Tinham dias que eu fazia mais de um choro. É impressionante. É como se eu estivesse entrando numa floresta sem fim, cheio de coisas novas para conhecer. Em 2009, eu fiz de novo, uma música por dia, todo dia. Aí resolvi fazer igual Copa do Mundo de Futebol: de quatro em quatro anos. E repeti a dose em 2013. Nesses três anos, eu fiz mais de 1.200 músicas. Então decidi gravar. Fiz uma série aproveitando a Acari e a Escola Portátil de Música. Gravei as músicas, oito por CD, com as partituras para serem vistas no computador. Já gravamos oito discos. A ideia é fazer 100. É um trabalho que vou ficar uns dez anos fazendo. Além disso, têm outros trabalhos de composição que tenho feito. No meio dessa confusão de ter que fazer muitas coisas ao mesmo tempo, compor tem sido minha válvula de escape. Já até combinamos aqui que quando a Casa [do Choro] estiver totalmente encaminhada, sem questões mais complexas para serem resolvidas, nós, os criadores, vamos passar para as gerações mais novas e vamos querer só tocar.