FASHION REVOLUTION

RDF, jorn.

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A sociedade mundial vem passando por diversas transformações – em níveis globais e, também e não menos importante, em níveis individuais. Uma das transformações relevantes está relacionada à forma de se alimentar, onde a ênfase do cidadão é a origem do alimento que ingere, como são produzidos e, inclusive, se são bombardeados por transgênicos e/ou agrotóxicos. Essa revisão de comportamento é uma conquista que tem permitido não apenas uma melhoria na qualidade de vida do indivíduo, mas também forçado uma maior atenção do poder público e da própria iniciativa privada para os processos que envolvem a produção de alimentos. Além disso, essa mudança vem permitindo a criação de novos mercados voltados para a oferta de alimentos saudáveis, naturais e orgânicos.

Essas transformações, que ocorrem paulatinamente na sociedade, dependem, também, de sinais e acontecimentos que sejam capazes de causar impacto nos formadores de opinião e, em consequência, na opinião pública, especialmente pelo fato de que os processos de produção são cada vez mais complexos e pouco transparentes devido, inclusive, à globalização, que faz com que muitos alimentos (e outros produtos e serviços) sejam produzidos em fábricas localizadas em países ou regiões inacessíveis ao cidadão comum.

Nessa via de causa e efeito em busca de uma sociedade mais sustentável, um relevante e lamentável desabamento ocorrido em 2013 em uma fábrica de roupas no edifício Rana Plaza, na cidade de Dhaka, em Bangladesh e que deixou mais de 1.110 mortos e 2.500 feridos, foi o grande motivador para que lideranças da indústria da moda sustentável londrina criassem um relevante movimento social e de consciência: o Fashion Revolution Day, que tem como data de oficial de surgimento o 24 de abril - para que o dia da tragédia em Dhaka não seja nunca esquecido.

O Fashion Revolution é um movimento mundial formado por profissionais que atuam no universo da moda e que, como suas lideranças dizem, são “pessoas que vestem roupas” e que querem saber quem as faz. É um movimento de resistência à mentalidade atual do mercado que explora mão-de-obra local para obter produtos com custos menores — um mercado que não investe na excelência das condições de trabalho e que, por isso, promove sofrimento e exploração.

O Fashion Revolution pretende com suas ações despertar a atenção do cidadão consumidor para a necessidade de saber a origem das roupas que veste – antes de se preocupar com o preço baixo que possa vir a pagar por elas. Pretende, ainda, fortalecer iniciativas que promovam a moda sustentável. Para atender suas propostas, além das ações descentralizadas realizadas por seus representantes em diversos países, o movimento realiza anualmente, e em mais de 90 países, a Fashion Revolution Week, que coloca sob o seu guarda-chuva diversos eventos e ações relacionadas à moda sustentável, inclusive incentivando marcas e produtores a demonstrar com transparência os processos de produção de suas roupas, dando visibilidade mundial à essas iniciativas. De acordo com a cofundadora do movimento, Orsola de Castro, “esperamos que o Fashion Revolution Day inicie um processo de descoberta, aumentando a conscientização sobre o fato de que a compra é apenas o último passo de uma longa jornada que envolve centenas de pessoas, realçando a força de trabalho invisível por trás das roupas que vestimos”.

No Brasil, o movimento vem ganhando força. Segundo Eloisa Artuso, cofundadora e consultora da UN Moda Sustentável e uma das representantes do Fashion Revolution no Brasil, “O movimento Fashion Revolution teve sua quarta edição no Brasil e esteve presente em 36 cidades com mais de 250 atividades e em 50 faculdades com mais de 150 atividades. Esse números nos deixam bastante animadas, pois mostram um crescimento exponencial com relação aos anos anteriores. Só no principal dia de evento em SP, tivemos um público de mais de 2 mil pessoas participando de oficinas, debates e outras atrações.”

Eloisa, que  é graduada em Desenho de Moda pela Faculdade Santa Marcelina  (SP) e mestre em Design Futures pela Goldsmiths University of London (UK), com foco em consumo consciente na moda, destaca que o movimento contribui para o início de uma nova forma das pessoas se relacionarem com a moda e seu consumo: “Acreditamos que perguntar  ‘quem fez minhas roupas’ é o primeiro passo para lembrarmos que existem pessoas por trás de tudo o que compramos e que o trabalho delas deve ser valorizado. É, também,  uma forma de exigirmos maior transparência das marcas que consumimos com relação aos seus modelos de negócio. Consumir de maneira consciente exige que tenhamos esse conhecimento. Só assim conseguiremos fazer escolhas mais saudáveis para as pessoas e para o planeta, além, é claro, de diminuir a quantidade que compramos. Precisamos entender que não precisamos de tantas roupas, o que importa não é quantidade e sim, a qualidade”.

A Fashion Revolution Week desse ano encerrou em maio passado, mas o êxito da proposta da equipe do Fashion Revolution não depende apenas desse evento, mas também, e principalmente, da conscientização e adesão de cada cidadão consciente.

A partir de cada um de nós.